[Resenha] Confissões do Crematório – Caitlin Doughty

CONFISSÕES DE UMA BLOGUEIRA

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Sinopse: Ainda jovem, Caitlin conseguiu emprego em um crematório na Califórnia e aprendeu muito mais do que imaginava barbeando cadáveres e preparando corpos para a incineração. A exposição constante à morte mudou completamente sua forma de encarar a vida e a levou a escrever um livro diferente de tudo o que você já leu sobre o assunto.
Confissões do Crematório reúne histórias reais do dia-a-dia de uma casa funerária, inúmeras curiosidades e fatos filosóficos, históricos e mitológicos. Tudo, é claro, com uma boa dose de humor. Enquanto varre as cinzas das máquinas de incineração ou explica com o que um crânio em chamas se parece, ela desmistifica a morte para si e para seus leitores.
O livro de Caitlin – criadora da websérie Ask a Mortician – levanta a cortina preta que nos separa dos bastidores dos funerais e nos faz refletir sobre a vida e a morte de maneira inteligente, honesta e despretensiosa – exatamente como deve ser. Como a autora ressalta na nota que abre o livro, “a ignorância não é uma bênção, é apenas uma forma profunda de terror”.

Biografia, Autobiografia, Memórias / Literatura Estrangeira / Não-ficção / Romance policial / Suspense e Mistério

 

Resenha: Prestem MUITA atenção nas “TAGS” usadas para descrever o gênero do Livro. Acho que até isso gera confusões! Não tem Suspense! Não tem Mistério! Não é um Romance Policial!!!

Como fã dos lançamentos da Darkside Books, esperava ler Confissões e amar, como geralmente acontece quando leio alguma obra lançada pela Editora. Mas não foi bem assim de início!

Caitlin deve ser uma jovem muito simpática, mas seu livro é um pouco menos que simpático e muito perto de ser chato. Essa foi a primeira impressão. Composto por 19 crônicas, parece algo escrito por um aluna nas aulas de Redação do Ensino Médio, tentando impressionar o professor.

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Começamos com uma crônica chamada “BARBEAR BYRON” que começa bem interessante até o momento em que ela começa a citar vários autores/pensadores contemporâneos e clássicos. E isso segue por todo o livro. Ficamos entre ela narrar suas experiências como agente funerária e quotista de bolso;

 “Uma garota nunca esquece o primeiro cadáver que barbeia. É o único evento na vida dela mais constrangedor do que o primeiro beijo ou a perda da virgindade.”

Depois da segunda Crônica, larguei o livro e peguei  outro. Percebi que precisava absorver o que havia lido, tentar achar alguma qualidade verdadeira para conseguir levar a leitura até o fim.

Dias depois voltei a ler o livro e mesmo assim nada me impressionava; Caitlin, como disse, tem sua dose de carisma, mas que esgota rápido. E a tentativa de escrever algo com uma linha narrativa de tempo não linear, não funciona se você não sabe como fazê-la. Parece que as ideias não se concluem, que ficam informações jogadas e cabe a nós, leitores, aceitarmos essa falta de tato ao terminar um relato e começar outro na mesma crônica. Da vontade de pegar a autora pelos braços e gritar: PARA!!! NÃO TÁ LEGAL!!!!!

Mas eu sou Brasileiro! Não desisti da Caitlin!

 “Embora você possa nunca ter ido a um enterro, dois humanos do planeta morrem por segundo. Oito no tempo que você levou para ler essa frase. Agora, estamos em quatorze.” 

Tudo ia ladeira abaixo até que Caitlin finalmente começa a fazer sentido. Na crônica de N° 07 chamada Bebês Demônios, a autora consegue nos levar, sem nos irritar, à lugares incríveis.

Na crônica, Caitlin nos conta (acho que pela primeira vez) que é formada em História Medieval e começa a falar sobre Bruxas e Inquisição.

 “Os números são incertos, mas as estimativas históricas mais baixas giram em torne de 50 mil pessoas executadas na Europa Ocidental por crimes de Maleficium, a prática de magia poderosa.[…]”

 Ela diz que em um dos livros mais conhecidos de caça as Bruxas, escritas pelo Inquisitor Heinrich Kramer, o Malleus Maleficarum, lê-se o seguinte:

 “Preparamos nossa armadilha principalmente para bebês não batizados […] e com nossos feitiços nós os matamos no berço ou mesmo quando estão dormindo ao lado dos pais, de tal forma que depois acreditam que sufocaram…”

 Caitlin segue contando sobre a arte da bruxaria que aprendera na faculdade e começa uma interessante analogia com o que ela própria precisou fazer enquanto trabalhava na Westwind. Ela coletava nos IML’s e nos Hospitais os corpos de bebês recém nascidos mortos e aqueles que morrem ainda nos primeiros meses.

Os que morrem no hospital, na barriga da mãe ou logo após nascer, eram cremados gratuitamente. E ela ia coletar em “caixas de papelão” e se sentia muito constrangida. Afinal de contas, sendo uma criança ou um adulto, algumas pessoas não conseguem conceber o ato de “queimar um ente até que esse torna-se nada além de cinzas”.

O livro passa a ser menos sobre o trabalho de Caitlin na Funerária Westwind e mais sobre o desapego da morte, algo muito difícil em nossas mentes viciadas e apegadas nos bens terrenos.

A forma como ela termina essa crônica é genial…

“A tragédia das mulheres acusadas de bruxaria era que elas nunca moeram de fato os ossos dos bebês para ajudá-las a voarem para um sabá […] Contudo foram injustamente mortas por esse motivo, ainda assim queimadas vivas na Fogueira. Eu, por outro lado, moí ossos de bebês (os ossos não totalmente carbonizados são moídos pós cremação) e ainda me agradeceram pelo meu ótimo trabalho.”

Então começamos a enxergar o livro (sim agora tem cara e letras de um livro) e Caitlin passa a ser encantadora. Principalmente quando fala sobre um amor não correspondido que a fez pensar em tirar sua própria vida.

Confissões do Crematório te pega de rasteira na metade do livro, mas depois fica impossível largar a humanidade e sinceridade de Caitlin. Ficamos torcendo por ela e seus colegas de trabalho. Um livro para ler em qualquer dia e horário, pois no final faz a diferença.

Nota máxima também para o trabalho de arte do Livro. Darkside Books, como sempre, faz um belo trabalho que torna os livros ainda mais gostosos de ler.

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Título: Confissões do Crematório

Autor: Caitlin Doughty

Editora: Darkside Books

Ano: 2016