[Resenha] O Vilarejo – Raphael Montes

Sinopse: Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome.

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As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.

Terror

Resenha: Raphael Montes vem sendo, sem medo de usar a palavra e estar exagerando, idolatrado nas redes sociais e sites de literatura por seu trabalho em Suicidas e Dias Perfeitos.

O Vilarejo foi meu primeiro contato com o autor, e de cara eu fiquei um tanto desconfiado. Um “selo” com elogios de Fernanda Torres e uma apresentação não convencional  na qual ele diz ter sido chamado pelo dono do Sebo Carioca baratos da Ribeiro para analisar uns livros deixados por uma senhora chamada Elfrida Pimminstoffer, que morreu aos 102 anos. Entre os livros havia um nome de um Padre/demonologista (que classificou os demônios em 1959)  que o indicou um estudioso da Língua na qual os livros foram escritos, o Cimério,  uma ramificação Botno-Úgrico.

Enfim…ao ler, achei que iria encontrar uma grande brincadeira em cima de um livro cuja premissa parecia tão forte e perturbadora.

E É!

Antes de falar sobre o livro, se faz necessário dizer que as ilustrações de Marcelo Damm são primorosas e dão ao livro um charme e estética únicos!

O Livro é dividido em contos e separados por “nomes de demônios”! Sim, demônios!

No livro, cada um representa um pecado capital. São eles:

Gula → Belzebu

Inveja → Leviathan

Soberba → Lúcifer

Luxúria → Asmodeus

Preguiça → Belphegor

Ganância → Mammon

Ira → Satan

No livro, o autor narra essas histórias e seus personagens, que aparecem mais de um vez em contos diferentes. Ficamos com a impressão que é realmente um lugar bem afastado, bem frio e sombrio. A narrativa de tempo dos contos é não linear. O primeiro conto Tem uma personagem, Helga, já idosa e em outro a vemos mais nova, falante e forte.

Aliás, o autor pede que, caso você queira, não siga a ordem dos contos como estão dispostas nos livros. Faça a sua ordem. Eu acho isso furada, pois pode ACABAR com o final do livro.

Falarei dos 3 melhores contos na minha opinião:

Gula – Raphael escolheu o melhor conto para abrir o livro; A história de Felika e Anatole é simplesmente incrível. O primeiro conto fala sobre a difícil vida dos pobres moradores do Vilarejo. Félika parece ser a única no Vilarejo que ainda tem comida em casa. Aparentemente, aprendeu a guardar e esconder alimentos, para que os outros moradores não saibam que ela ainda tem o que por em seu prato e de suas crianças.

“Alguém matou Astor – Repete a Sra. Helga – Veja, criança.”

Ao que está fazendo uma refeição, é interrompida por Sra. Helga, que insiste em conversar. Após conseguir se livrar da “velha”, Félika escuta um barulho e vê que seu marido, Anatole, voltou depois de muito tempo fora. E então temos o primeiro Plot Twist do livro que realmente nos deixa de queixo caído.

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Esse primeiro conto dá o tom perfeito para que o leitor sinta-se dentro desse vilarejo, observando a vida desses moradores cheios de pecados. SIM! Precisamos deixar claro que esse livro é sobre pecados e pecadores.

Soberba – O segundo conto que mais gostei foi justamente o que tem como personagem principal a Sra. Helga e seu bebê e um negro caolho que aparece no Vilarejo, sem falar o idioma deles. Logo, o valentão do pedaço, Ivan, decide que devem matar o pobre homem e junta uma galera para tal. Mas a Sra. Helga o impede e o dá abrigo e comida. Ele estava, aparentemente, procurando por suas filhas, que foram sequestradas e, seguindo pistas, chegou ao Vilarejo.

“Um homem preto e caolho que fala a língua do Diabo, como é capaz de defendê-lo Sra. Helga?”

O negro, cujo nome é Mobuto, passa a servir a Sra. Helga até que ela recebe a visita de um homem vendendo um Husky e a alerta dos perigos de ter um “negro Africano” em casa.

Nesse momento, abre-se a caixa de pandora e Helga passa a ver Mobuto como um bárbaro e não demora a se referir à ele como negro, assim como todos do Vilarejo.

O desfecho desse conto é incrível!

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O resto, fica impossível de contar, assim como o último conto, o terceiro de minha lista de “melhores de O Vilarejo”, o que representa a IRA,  pois é nele onde tudo é revelado.

Se pensa que acabou, engana-se. Leia o livro com MUITA ATENÇÃO, porque o posfácio revela um último e delicioso segredo!!!

Peque MUITO lendo esse livro! Vale a pena!

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Título: O Vilrejo

Autor: Raphael Montes

Editora: Suma de Letras

Ano: 2015