[Resenha] O Homem-Mulher – Sérgio Sant’Anna – Companhia Das Letras

O Homem-Mulher

Sergio Sant’Anna – Companhia Das Letras

Sinopse: A obra de Sérgio Sant’Anna é de difícil classificação. Transgressor contumaz, ele4qx2l21 vem desde a década de 1960 testando os limites da prosa, dos gêneros — e da própria ideia de literatura. Seus romances, contos, poemas, novelas e peças de teatro romperam tradições e derrubaram barreiras entre alta e baixa cultura, entre popular e erudito, numa linguagem descarnada tão reconhecível quanto escorregadia, que influenciou inúmeras gerações de escritores. Apesar da explícita vocação experimental, Sant’Anna sempre foi também autor de prosa acolhedora, cujo interesse parece residir não em alienar o leitor, mas, ao contrário, em incluí-lo nos intricados e deliciosos jogos literários que concebe. Os contos de O homem-mulher configuram a expressão máxima dessa ideia. É o caso da história em que o protagonista se apaixona pela vendedora de lencinhos que junta dinheiro para o tratamento de câncer do marido. Em meio à alta carga erótica da trama, o conto também se revela delicado como os produtos da garota. Ou, então, do magistral e imediatamente antológico “Eles dois”, que narra, com força cinematográfica, a história de um casal morando num casarão nos anos 1970. Capaz de surpreender até seus leitores mais antigos, O homem-mulher é também uma perfeita porta de entrada para a obra rica, vasta e memorável de Sérgio Sant’Anna.

Resenha: Descobri o livro O Homem- Mulher pesquisando livros que explorassem o erotismo para ler durante o #DesafioLivrada2017

Havia ficado entre 03 títulos, mas O Homem – Mulher ganhou e essa madrugada terminei a leitura. Foram dois dias de contato Tête-à-tête com a obra sacana de Sergio Sant’Anna que tenho o prazer de deixar claro a todos: É UM TESÃO!

O livro é divido em 19 contos que utilizam diferentes formas de abordar o erotismo. Em nenhum dos contos você se entedia ou corre com a leitura. A escrita é ora marginal, ora sofisticada. Passamos pelos mais diversos cenários, por diferentes classes sociais e a veracidade é latente e contínua. Há verdade em tudo o que lemos.

Dos 19 contos, 05 deles mexeram muito comigo, e é deles que irei falar.

O HOMEM – MULHER: O primeiro é o que dá título ao livro e conta a história de Adamastor, também conhecido como Fred Wilson e também como Zezé! Um homem sem medo de explorar seu lado feminino e acaba utilizando roupas de suas irmãs para pular o Carnaval, como a maioria dos homens fazem. E é durante um bloco de Carnaval que ele flerta com uma menor de idade. Sim, Zezé sexualmente é hetero. A predileção por roupas femininas iremos entender depois.

A passagem em que ele transa no cemitério com a menor de idade é deveras excitante e te recordará das loucuras que fazemos nos carnavais da vida. Conto incrível que é revisitado ao final do Livro, desta vez de forma integral. Mas falamos disso depois.

LENCINHOS: Nesse conto conhecemos Téo, um homem adulto, divorciado, que na saída de uma consulta dentária encontra e se encanta com uma vendedora de lencinhos artesanais chamada Manoela. Como forma de tentar saber mais sobre ela, aceita o convite da moça para sentar em um bar e ver os lencinhos com calma. O papo rende, cai uma chuva e ele decide comprar os lencinhos da moça, mas para tal precisa ir ao caixa eletrônico retirar dinheiro. Os dois caminham juntos, bem colados, embaixo de um guarda-chuva. Téo já está fisgado por Manoela, mas essa, além de ser casada, vende os lencinhos para ajudar no tratamento de seu marido que sofre com um câncer. Pensei em vários momentos que haveria uma cruel traição por parte de Manoela e Téo, que chega a conhecer e se tornar amigo do marido dela. Mas Sergio Sant’Anna transforma a relação deles em uma lealdade ímpar.

Manoela passa a ser o “objeto da afeição” de Téo, ao mesmo tempo em que ele flerta com sua dentista. Aliás, a transa dos dois após o expediente da mesma em sua mesa de trabalho é digna de um AVN Awards. É bem escrita e cheia de um erotismo latente que te faz chegar ao clímax junto com o casal. Você consegue imaginar e sentir tudo o que Téo e a Dentista fazem juntos.

Esse conto mostra que o livro é sim sobre erotismo, mas também sobre carinho, amor. Ele é forte e singelo na mesma proporção. A forma como termina é triste e ao mesmo tempo nos esquenta o coração.

O RIGOR FORMAL: O conto mais cínico e debochado o livro, fala sobre um escritor famoso chamado Fernando Ramiro e sua esposa. E logo de cara ficamos sabendo que o que  estamos lendo é uma carta que ela está escrevendo para ser publicada por algum jornal, relatando a traição dela com um estudante de Pós-graduação.

A intenção do conto é bem simples: humilhar o famoso autor esfregando em sua cara uma traição suja, usando palavras que o próprio abomina, como por exemplo, a palavra mais popular que geralmente dão ao sexo feminino. Sim, aquela mesma que começa com “B”.

Mas engana-se quem pensa que a humilhação fica por conta do sexo oral praticado por ela no estudante, ou nas palavras usadas enquanto ele a penetra na cama do escritor. Ela fere o marido mostrando o quão patético ele é por ter se tornado um autor medíocre que sonha em ser um membro da Academia Brasileira de Letras. Ela sabe que, escrevendo esse relato, as chances dele diminuem imensamente.

Esse conto é divertidíssimo e nos sentimos, às vezes, como o marido, lendo o relato em algum jornal, se sentindo envergonhado por ser corno!

AS ANTENAS DA RAÇA: Até certo ponto o conto gira em torno da Embaixatriz Berenice Azambuja. Morou algum tempo no Turzequistão e retornou ao Rio após o marido desenvolver Alzheimer. Acomodada em um triplex na Av. Atlântica em Copacabana, ela resolve promover um jantar, pois sempre foi uma anfitriã maravilhosa.

Já com a casa cheia de convidados e o marido devidamente seguro em um quarto a parte, acompanhado de uma enfermeira negra e linda, ela desfila simpatia e bom gosto.

Até que, durante a entrada do jantar, um Comendador a chama discretamente e avisa que há uma barata em sua sopa. Sem acreditar muito na visão do Comendador, se assusta ao conferir e constatar que estava lá: com suas formas geométricas que lembram um trigrama ou hexagrama do i ching. Sem pensar duas vezes, a Embaixatriz toma a sopa, engolindo a barata rapidamente, seguida de um generoso gole do uísque Seven Crown, seu favorito, e insinua que a visão do Comendador já não deveria estar muito afiada.

Findo o jantar, Berenice desce ao quarto de seu marido, e encontra a enfermeira penteando os cabelos, de blusa aberta com os seios a mostra. Ao perceber a presença da Embaixatriz e patroa, se recompõe e pede desculpas. Berenice diz que não havia problemas, já que o marido sempre foi fã de belos seios negros. E já que isso o acalmava que ela poderia continuar.

Nesse conto nos deparamos com a genialidade de Sant’Anna que tira o foco em Berenice e transforma a “barata” na principal personagem. Mas essa parte é bem melhor que vocês descubram sozinhos. Simplesmente IMPERDÍVEL!

ELES DOIS: Um conto nostálgico e lindo. Relata de forma sincera a relação de duas pessoas descobrindo o amor e as formas de amar.  Durante o conto inteiro não conhecemos seus nomes. Sabemos apenas que Ele e Ela estão apaixonados, morando em uma xácara localizada em Venda Nova, Belo Horizonte. Ele funcionário público e Ela relações públicas de um clube. Ambos sem grana e em uma casa praticamente sem nada. Foram ganhando coisas, comprando aos poucos as mobílias, construindo estantes e prateleiras.

Cultivando o que comer e plantas ornamentais, e transando. Transando muito, todos os dias.

As passagens são como estar lendo sobre nós mesmos, pois são todas muito reais e cotidianas. Quem já saiu de casa pra viver um amor sem lenço nem documento, vai se encontrar com o passado, ou com o presente dependendo da situação. Conhecemos o amor e também conhecemos o que vem após: a solidão ou outro amor. Como disse, é um conto muito honesto, que tira qualquer esperança surreal de um amor que dure para sempre.

O HOMEM-MULHER II: Ao final do livro, voltamos a Adamastor ou Fred Wilson ou Zezé. O conto recomeça do início. Lemos todo ele de novo e avançamos para conhecer o personagem “pós carnaval”. Adamastor alça voo e vai parar em uma Companhia de Teatro, onde se torna Fred Wilson, para os íntimos, Zezé.

Consegue um papel na peça “As Criadas”, de Jean Genet e, por ordem do diretor que sempre o assedia, passa a andar dia e noite vestido como mulher. O que pra ele era uma diversão, mas também uma forma de sentir prazer, pois adorava se masturbar vestido como mulher, imaginando o Homem comendo a Mulher dentro dele, se torna parte de um laboratório que leva o próprio a conclusão de que ele é, verdadeiramente, um Homem – Mulher.

Larga a Companhia de Teatro e vai para o Rio de Janeiro, mas precisamente para o Bairro da Lapa, no Centro do Rio, famoso por sua vida boêmia e pela total falta de preconceito com todos os seres que ali habitam. E isso permite com que o Homem-Mulher possa andar pleno pelas ruas, sem ser incomodado.

Conhece uma jovem burguesa que vira sua amante e se apaixona pela ideia de participar de uma Peça que Zezé está escrevendo e na qual irá atuar e dirigir. Aceita o papel de atriz e amante e passam a dividir um apartamento. Em seguida chega Henrique Esteves, Cubano, vivendo seu asilo político no Rio de janeiro. Escuta a conversa de Verônica e Zezé e se oferece para atuar e ajudar. Também acaba indo morar com eles, mas dorme separado.

Existe um erotismo explicito nesse conto, mas nada supera a descrição de Zezé, um homem sem trejeitos femininos, de peito peludo que ele faz questão de deixar a mostra nos vestidos que usa e com roupas femininas. Esse tesão é transgressor até para quem está lendo.

O final desse conto e desse livro é também o final de Zezé. É chocante, é derradeiro e é lindo. Fica uma sensação de que somos todos julgadores ao mesmo tempo em que somos incompreendidos.

O Homem-Mulher é um livro que tem sexo do início ao fim, mas não necessariamente o ato sexual. As palavras, os cenários, os diálogos. A carga sexual é imensa e transborda nossos olhos e nossa mente enquanto o lemos.

Um livro pra reler e se inspirar! Recomendadíssimo!

SOBRE O AUTOR: Nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. Iniciou sua carreira de escritor em 1969, com os contos de O sobrevivente, livro que o levou a participar do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Teve obras traduzidas para o alemão e o italiano e adaptadas para o cinema. Recebeu quatro vezes o prêmio Jabuti, mais recentemente pelos contos de O voo da madrugada (2003), vencedor ainda do prêmio APCA e segundo lugar no prêmio Portugal Telecom.

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Título: O Homem-Mulher

Autor: Sergio Sant’Anna

Páginas: 184 páginas

Editora: Companhia das Letras

Ano de Lançamento: Português