[Resenha] A Desumanização – Valter Hugo Mãe – Biblioteca Azul/Cosac Naiyf

A Gelada Beleza da Tristeza

SINOPSE: Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gêmea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.

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RESENHA: Durante a maratona Segura o Livro eu li A Desumanização, também por conta do #DesafioLivrada2017. O livro de Valter Hugo Mãe é o mais próximo de um beijo doce de despedida que a literatura já me proporcionou.

Na história, começamos o livro sabendo que uma menina chamada Sigridur faleceu e sua irmã gêmea, Halldora, agora começa a sentir a solidão e incerteza da vida sem seu “espelho”. Com 12 anos de idade e morando com pai e mãe, Halldora passa os primeiros dias sem a irmã, próximo de onde ela fora enterrada esperando que ali ela germinasse. No vilarejo onde mora eram chamadas de “menina mais morta” (A Sigridur) e a “menina menos morta” (Halldora).

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Imagens de um Vilarejo na Islândia

Brotam pensamentos nada saudáveis na cabeça infantil da menina, que jura sentir a terra sobre seu corpo, exatamente como deveria estar sentindo a irmã falecida. Ouvia a irmã conversando com ela e implorando que ela não desse bola para Einar, um rapaz mais velho que jurava que iria casar com ela. O próprio Einar tem sua história contada em alguns momentos do livro, e fica um mistério sobre o porquê ele foi criado sem o pai e não lembrar de algo que acontecera enquanto ainda criança.

“As pessoas já chamavam àquele bocado de chão a criança plantada. Diziam assim. A criança plantada. Também parecia uma chacota porque o tempo passava e não germinava nada, não germinava ninguém.

A mãe das Gêmeas passa a se cortar após a morte da filha, que era sua preferida, e começa uma tensão entre a menos morta e ela, pois a mãe acredita que ela também deve morrer. O pai de Halldora,  um poeta sem pulso firme, tenta apaziguar e manter uma certa normalidade mesmo sofrendo demais com a perda da filha.

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Paisagens da Islândia

Halldora engravida de Einar e isso torna a relação em sua casa insustentável. A mãe querendo matá-la, o pai decepcionado e ela querendo apenas fugir, com medo de ter decepcionado sua irmã.

“A Culpa era uma ideia feia que não saberíamos entender. Era mais justo que não caíssemos na tentação de a evocar.”

Valter Hugo Mãe constrói uma história cheia de dor, arrependimento e morte. Com uma prosa extremamente poética, ela nos leva a locais sombrios dentro da mente desses personagens que não mais se reconhecem. Sombrios mas cheios de beleza. Uma beleza que machuca.

A Desumanização vai nos levar à Islândia, terra de tubarões, ursos polares e baleias, um violento e escuro inverno e uma natureza que também protagoniza muitas passagens do livro. Aliás, a Islândia é uma protagonista no livro de Valter Hugo Mãe. Em muitos momentos, as paisagens e os costumes islandeses nos explicam muito sobre o comportamento dos que ali moram.

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Triste, sim, é verdade. Mas um livro imperdível que você não pode deixar de ler.

“A minha irmã queria ser longe e talvez não houvesse maior distância do que a morte.”

Na nota do autor ao final do livro, ele comenta sobre sua relação com um irmão falecido antes que o mesmo tivesse nascido e também sua relação com a Islãndia. Os lugares, os costumes e a música. Fica a dica para um grupo e uma cantora que fico feliz de saber que ele gosta. Sígur Ròs e Björk, a quem ele se refere como DEUSA!

Título: A Desumanização

Autor: Valter Hugo Mãe

Páginas: 160 páginas

Editora: Cosac Naiyf

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O AUTOR: Valter Hugo Mãe é um dos mais destacados autores portugueses da atualidade. A sua obra está traduzida em variadíssimas línguas, merecendo um prestigiado acolhimento em países como o Brasil, a Alemanha, a Espanha, a França ou a Croácia. Publicou sete romances: Homens imprudentemente poéticos; A desumanizaçãoO filho de mil homensa máquina de fazer espanhóis (Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano e Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano); o apocalipse dos trabalhadoreso remorso de baltazar serapião (Prémio Literário José Saramago) e o nosso reino. Escreveu alguns livros para todas as idades, entre os quais: Contos de cães e maus lobosO paraíso são os outrosAs mais belas coisas do mundo e O rosto. A sua poesia foi reunida no volume contabilidade, entretanto esgotado. Publica a crónica Autobiografia Imaginária no Jornal de Letras.

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